Educação

Você também pode ser multilíngue

By 25 de fevereiro de 2019 No Comments

Basta desbloquear as suas habilidades de dentro para fora


Autor – Christopher Timothy McGuirk
Conferencista em EFL (Inglês como Língua Estrangeira), University of Central Lancashire

Pense em quando você começou a aprender uma língua estrangeira. Para muitos leitores, provavelmente era francês, alemão ou espanhol na escola. Eu era um dos que tinha a sorte de ser “bom em idiomas” e por isso estudei todas. Porém, eu me recordo de amigos, que você também deve ter tido, que travaram ao pensar na possibilidade de falar uma segunda língua dentro da sala de aula na frente dos demais colegas.

Albert Bandura, psicólogo e estudioso do assunto, chamou isso de “persuasão social” – eu chamo de medo de ser exposto na frente de seus colegas. Os professores muitas vezes definem isso em termos de “ter (ou não ter) um dom” – o aluno A é bom em idiomas, mas o aluno B simplesmente não é.

Mas há outro argumento: o aprendizado de idiomas, na realidade, não tem nada a ver com aptidão natural, e muito mais a ver com outros fatores como o seu ambiente de aprendizado e a sua exposição à língua.

Noam Chomsky introduziu uma ideia controversa sobre o aprendizado de idiomas nos anos 60, conhecido como o “dispositivo de aprendizado da língua”. Ele sugeriu que as crianças têm uma gramática universal embutida que lhes permite aprender qualquer idioma. Em suma, aprender uma primeira língua é fácil porque você é programado desde o nascimento para poder fazê-lo.

Mas este conceito é um ponto de discórdia entre muitos pesquisadores, porque há razões lógicas para discordar das ideias de Chomsky como ele as apresentou.

Ferramentas linguísticas

As ferramentas linguísticas, por exemplo, explicam que o “dispositivo de aprendizado da língua” não parece ser adaptável a diferentes dialetos e sotaques.

Em outras palavras, o “dispositivo” ajudaria você a aprender uma forma padrão da sua língua nativa, mas isso pode não ajudá-lo, por exemplo, a aprender a maneira de falar de determinadas regiões que não a sua e de dialetos indígenas.

Outros pesquisadores questionaram por que algumas pessoas aprendem idiomas mais devagar que outras. Porque se o dispositivo de Chomsky existisse, ele deveria – teoricamente – ser ativado automaticamente na mesma proporção para todos os alunos.

Entretanto, um estudo recente da Florida Atlantic University parece implicar que o “dispositivo de aprendizado da língua” apresentado por Chomsky pode realmente existir – embora se comporte de uma maneira ligeiramente diferente da sugerida pelo pesquisador.

Os pesquisadores estavam estudando o aprendizado de vocabulário e gramática entre os estudantes que falavam inglês e espanhol como primeira língua. Eles descobriram que as crianças desenvolviam um conjunto separado de “ferramentas” para lidar com cada idioma que aprendiam.

O estudo foi realizado com crianças em escolas dos EUA, onde tanto o inglês quanto o espanhol são amplamente falados. Os pesquisadores descobriram que, à medida que o inglês das crianças melhorava – devido a estar em um ambiente onde a língua inglesa era predominantemente falada -, o espanhol piorava.

O que isso significa, em termos reais, é que os alunos não têm apenas uma “gramática” – ou um conjunto universal de regras que abrange todas as línguas que aprendem. Porque se as crianças usassem as mesmas “regras” ou “recursos” para aprender os dois idiomas, o declínio no espanhol não teria acontecido. Em vez disso, esses alunos conseguiram criar novas gramáticas – ou novas ferramentas – cada uma muito diferente da outra.

Exposição à língua

Essas descobertas são interessantes porque sugerem que o cérebro é capaz de desenvolver conjuntos ilimitados de recursos – cada um exclusivo para a linguagem adicional que você aprende – seja sua primeira, segunda ou até mesmo a 20ª. A equipe que realizou o estudo sugere que  barreira ao aprendizado pode ser mais ambiental – baseada na exposição à língua – não estando ligada, portanto, a capacidade de aprendizado do cérebro.

Dito isso, a sugestão de que já temos os recursos para aprender tantas línguas quanto quisermos é, possivelmente, uma mudança no jogo. Isso porque é possível criarmos condições para que todos, independentemente da idade ou do nível, dominar vários idiomas de uma só vez.

Apenas o “input”?

Mas, embora este novo estudo mostre que a qualidade do “input” de um aprendiz de idioma é fundamental, essa não é uma grande descoberta em si. O linguista e pesquisador educacional Stephen Krashen passou anos argumentando que este é o caso.

A qualidade do “input” ou a exposição ao idioma que os alunos recebem é claramente um grande fator no aprendizado de novas línguas. Mas, o como esse “input” é fornecido também pode ser tão importante quanto. E isso pode ser visto na maneira em que os alunos aprendem a linguagem dentro e fora da sala de aula.