Educação

PESQUISA VOCÊ CONSEGUE APRENDER DORMINDO? SIM, SAIBA COMO

By 21 de março de 2019 No Comments

O sono é conhecido por ser crucial para a aprendizagem e para a formação da memória. Além disso, cientistas conseguiram identifi car memórias específi cas e consolidá-las durante o sono. Os mecanismos exatos por trás disso eram desconhecidos – até agora

Ana Sandoiu – MNT – Medical News Today – Inglaterra – Checagem de conteúdo por Jasmin Collier

Aqueles que cresceram assistindo o desenho animado “O Laboratório de Dexter” podem se lembrar do famoso episódio em que Dexter está tentando aprender francês da noite para o dia.

Ele cria um dispositivo que toca frases em Francês, o ajudando a aprender durante o sono.

Claro, já que o programa é de comédia, o gravador trava e fica repetindo a frase “Omelette du fromage”, e no dia seguinte Dexter não consegue dizer outra coisa. Este é, naturalmente, um problema que o coloca em uma série de situações hilárias.

A ideia de que podemos aprender em nosso sono cativou as mentes de artistas e cientistas; a possibilidade de um dia melhorar completamente a nossa produtividade ao aprender durante o sono é muito atraente. Mas tal cenário poderá se tornar uma realidade?

Novas pesquisas parecem sugerir isso, e os cientistas no geral estão se chegando perto de compreender o que acontece no cérebro quando dormimos e como o estado de repouso afeta a aprendizagem e a formação da memória. Por exemplo, estudos anteriores mostraram que o movimento não rápido dos olhos (Non-rapid eye movement, NREM) ao dormir – ou sono sem sonhos – é crucial para a consolidação das memórias.

Também foi demonstrado que os fusos do sono na atividade oscilatória cerebral, que podem ser vistos por meio de um eletroencefalograma (EEG) durante o segundo estágio do sono NREM, são fundamentais para essa consolidação da memória.

Os cientistas também foram capazes de localizar certas memórias e reativá-las, ou fortalecê-las, usando pistas auditivas.

No entanto, o mecanismo por trás dessas conquistas permaneceu um mistério até agora. Os pesquisadores também não estavam certos de que tais mecanismos ajudariam a memorizar novas informações.

Portanto, uma equipe de pesquisadores decidiu investigar. Scott Cairney, da University of York, no Reino Unido, coliderou a pesquisa com Bernhard Staresina, que trabalha na University of Birmingham, também no Reino Unido.

Suas descobertas foram publicadas na revista acadêmica Current Biology.

Fusos de sono são a chave da consolidação da memória

Cairney explica a motivação para a pesquisa: “Estamos certos de que as memórias são reativadas no cérebro durante o sono, mas não conhecemos os processos neurais que sustentam esse fenômeno”.

Ele continua: “Em pesquisas anteriores, os fusos de sono têm sido ligados aos benefícios que o sono acarreta para a memória, então nós queríamos investigar se essas ondas cerebrais poderiam mediar a reativação”.

“Se eles realizam a reativação de memória, nós constatamos, então, que seria possível decifrar os sinais da memória no momento em que esses fusos ocorressem”.

Para testar suas hipóteses, Cairney e seus colegas pediram que 46 participantes “fizessem associações entre palavras e imagens de objetos ou cenas antes de um cochilo”.

Depois, alguns dos participantes tiraram uma soneca de 90 minutos, enquanto outros ficaram acordados. Para aqueles que cochilaram, “Metade das palavras foram […] repetidas durante o cochilo para acionar a reativação das memórias de imagens recém-aprendidas”, explica Cairney.

“Quando os participantes acordaram depois de um longo período de sono”, diz ele, “nós reintroduzimos as palavras e pedimos a eles que se lembrassem das fotos dos objetos e das cenas”.

“Descobrimos que a memória deles era melhor com as imagens que estavam conectadas às palavras apresentadas durante o sono, comparado com aquelas palavras que não estavam”, relata Cairney.

Ao utilizar um aparelho de EEG, os pesquisadores também perceberam que, ao tocar palavras associadas para reativar memórias, fusos de sono nos cérebros dos participantes desencadearam-se.

Mais especificamente, os padrões de EGG quanto ao fuso de sono, “relataram” aos pesquisadores se os participantes estavam processando memórias relacionadas a objetos ou cenas.

Como aumentar a memória enquanto dormimos

“Nossos dados sugerem que os fusos facilitam o processamento de aspectos relevantes da memória durante o sono e que esse processo faz com que aumente sua consolidação”, diz Staresina.

“Embora já tenha sido mostrado anteriormente”, continua ele, ”que a reativação da memória localizada consegue impulsionar sua consolidação durante o sono, apontamos agora que os fusos do sono podem representar o principal mecanismo subjacente ”.

Cairney acrescenta: “Quando você está acordado, aprende coisas novas, mas quando está dormindo, você as refina, tornando mais fácil recuperá-las e aplicá-las corretamente quando precisar delas. Isso é importante para a forma como aprendemos, mas também como isso pode ajudar a manter as funções cerebrais saudáveis. ”

Staresina sugere que esse conhecimento recémadquirido poderá levar a estratégias eficazes para aumentar a memória durante o sono.

“A indução direta dos fusos de sono – por exemplo, estimulando o cérebro com eletrodos –quando combinada com a reativação da memória selecionada, permite melhorar ainda mais odesempenho da memória enquanto dormirmos”. Bernhard Staresina

Assim, embora aprender coisas do zero no estilo de “O laboratório de Dexter” possa demorar um pouco para se tornar realidade, podemos afirmar com segurança que nossos cérebros continuam aprendendo enquanto dormimos, e que os pesquisadores estão muito mais próximos de entender por que isso acontece.

Thais Gargantini

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