educação

O real propósito da educação está esquecido

By 4 de dezembro de 2017 No Comments

A mera preparação para exames ganha mais e mais importância em detrimento do amplo sentido da educação, que é crucial para a vida

Nos países desenvolvidos é cada vez mais usual estudantes a partir de 4 ou 5 anos começarem a ser preparados para exames admissionais em universidades de renome.

Para essa empreitada surge e se difunde cada vez mais a figura do chamado tutor, um consultor particular que suplementarmente prepara, junto com pais e com a escola, a criança. Seu objetivo é construir um perfil e um currículo para o jovem da forma mais adequada possível para os exames.

Guardando as proporções e peculiaridades do Brasil, parece que estamos seguindo esse pernicioso método de educação. A experiente educadora inglesa, Loren Macallister, no artigo abaixo, consegue iluminar esse obscuro caminho, unindo o resgate do real propósito da educação, que vem sendo esquecido, com bons resultados nos exames admissionais.

 

Por Loren Macallister 

Em um ambiente escolar cada vez mais voltado para os resultados, os pais correm o perigo de serem atraídos para o ciclo implacável da tutoria e o excesso de preparação na ânsia de que seus filhos tenham sucesso. Muitas vezes, pais vivem vicariamente através de seus filhos e, visando prêmios e elogios, forçam-os a estudar demasiadamente. O que aconteceu com a ideia de que a escola é um lugar onde todo mundo tem valor? Onde a excelência acadêmica prospera e as crianças atingem seu potencial exatamente por gostarem de si próprias? Nós sabemos que a estabilidade emocional e a felicidade alimentam o desejo de aprender. Como é que erramos tão frequentemente como sociedade, escolas e como pais?

Felizmente, iniciativas recentes em escolas e em cursos de CPD (Continuing Personal or Professional Development) se preocupam em difundir felicidade, concentração e bem-estar mental parecem ser a última esperança para a pandemia que criamos. Nós lamentamos os níveis crescentes de ansiedade e depressão em pré-adolescentes e adolescentes, mas, incoerentemente, procuramos no Google listas de tutores. As conversas do dia a dia e discussões on-line são cheias de “​​Você pode recomendar um bom tutor? Nosso caçula não está indo muito bem” ou “Eu realmente preciso que o meu filho seja o melhor dos melhores. Ele tem que ser, se for estudar em tal escola…”.

Tutoria pode ser aparentemente a solução para tudo, mas também pode ser infecciosa. Se prestarmos atenção, a tutoria excessiva é quase semelhante a receber uma fotografia escolar de seu filho com a opção de retirar todas as imperfeições que existem nele. Essa não é uma boa metáfora para o que alguns pais (e escolas) tendem a fazer: tentar garantir que seus filhos não tenham falha alguma?

Como encontrar o equilíbrio entre deixar o filho explorar possibilidades desportivas e criativas e o desespero em começar a construir um bom currículo para a criança antes do seu aniversário de oito anos? “É, eu sei, mas é assim que funciona…” é a resposta na ponta da língua para o caso de alguém questionar as aulas extras para exames ou o fato da criança ter uma agenda lotada de atividades. As crianças também precisam se entediar, para serem capazes de encontrar suas próprias maneiras de contornar o tédio. Além disso, elas precisam de tempo de inatividade. Hora para fazer nada. Absolutamente nada.

Seria a escola capaz de combinar a intensa preparação para exames externos e o incentivo à paixão por assuntos que vão além de um currículo? Como é que uma escola consegue realizar um preparo para provas de admissão, bolsas de estudos e avaliações, tranquilizar os pais, preparar as crianças para a próxima fase acadêmica e ainda garantir o engajamento e entusiasmo de professores? Como fazer isso sem deixar que a falta de tempo prejudique, sem mexer na grade e sem lecionar exclusivamente para exames? É possível, mas é uma arte que envolve perspectiva e muita fiscalização. Para mim, a resposta para conseguir o equilíbrio na escola (e em casa) está nas mensagens por trás de duas histórias.

A primeira fala de um rapaz que encontra um casulo e observa a borboleta a tentar emergir dele. Frustrado e sentindo simpatia pelo inseto, que lutava para se espremer através do buraco estreito, o garoto abre o casulo. Entretanto, o que ele não percebeu é que a borboleta precisava da luta para conseguir reforçar as asas, sem as quais nunca poderia voar. E a borboleta ficou ali, imóvel, as asas molhadas e fracas, incapaz de se adaptar ao novo ambiente em que se encontrava. Ao tirar parte do processo que era tão vital para a independência da borboleta, o menino tinha, sem querer, aleijado-a. Ela nunca voaria.

Assim também pode ser a influência dos pais, por mais bem intencionada que seja. A tentativa de se apressar em cada fase de escolaridade e acabar com a multidão de concorrentes leva à quebra desses casulos cada vez mais cedo. Toda criança que recebe muita tutoria costuma se destacar em processos de admissão, mas talvez não seja assim tão provável que ela prospere em um ambiente para o qual ela não esteja preparada. Como essa criança vai aprender a voar? Provavelmente com maior dificuldade.

Na segunda história, estão dois pedreiros trabalhando. Um homem passa e pergunta ao primeiro: “O que você está fazendo?”, ele responde: “Eu estou partindo pedras”. Frustrado com a resposta, o homem recorre ao segundo pedreiro, que responde de forma mais entusiasmada: “Eu estou construindo uma catedral, e esta é a parte que será usada para dar apoio a ela”. Quantas vezes nós, professores e pais, damos um passo para trás e olhamos para o que estamos fazendo para ajudar a construir uma catedral? Quantas vezes os pais e professores respondem algo como “Eu estou partindo pedras”?

Para mim, o que captamos de ambas as analogias é claro: permitimos que a criança “quebre o casulo”, para que ela possa voar. Recuamos e olhamos para o que estamos construindo na criança, mas deixamos que ela seja seu próprio arquiteto, com pedreiros treinados apoiando-a e compartilhando com ela conhecimentos, mas também aprendendo a partir dela. Nós sabemos a importância dos prazos, dos materiais e do propósito de se ter uma catedral como um objeto de beleza. Porém, mais importante ainda, é sabermos o que a criança vai se tornar ao se construir, falhando, ganhando e refletindo sobre a beleza da criação, não apenas do resultado.

Uma educação que estimule as crianças a pensar deve ser uma mistura de tudo isso. Quebra de casulo, construção de catedrais, resolução de problemas e aprendizagem independente. Foco, trabalho em equipe, perspectiva, trabalho duro, conhecimento e autoconsciência são o que resultará na criação de uma obra de arte, ou melhor, de uma catedral. Talvez devêssemos focar um pouco mais no que os nossos alunos podem ser, em vez de ficarmos preocupados com o que eles podem fazer. Afinal, se o trabalho for bem feito, uma coisa levará à outra. O caráter é para a vida toda.

Ensinar as crianças a saber o que fazer quando enfrentam o desconhecido, a se adaptar e a aprender a resolver problemas com certeza enriquecerá sua realização acadêmica. Isso, somado a uma boa autoestima, é o que vai torná-los mais atraentes para as escolas de alto nível – se, de fato, esse é o objetivo – além de ajudá-los a desenvolver um amar pelo aprendizado. Como professores e pais, precisamos ter esse equilíbrio. Como pais, precisamos lembrar que crianças felizes aprendem melhor. O exame não existe pelo exame, mas sim para fazer as pessoas pensar. Quando entendemos isso e temos professores apaixonados, experientes e empáticos alimentando curiosidade e crescimento intelectual, os resultados aparecem por conta própria.

Acima da porta da minha sala de aula está a minha citação favorita, que tem tudo a ver com o que faço: “A vida é curta. Então? Viva. Ame. Aprenda. Deixe um legado” (Stephen Covey). Vamos nos lembrar disso. É o que realmente importa.

 

Artigo de Loren Macallister, Diretora Executive Management  da consagrada Shrewsbury House School da Inglaterra que tem 150 anos de história

Thais Gargantini

Author Thais Gargantini

More posts by Thais Gargantini

Leave a Reply