Educação

O PODER DO RELACIONAMENTO

By 11 de março de 2019 No Comments

Os alunos que desenvolvem um vínculo forte com um professor
tendem a pontuar mais nos testes.

Por The Hechinge Report – EUA

Dois estudos sobre como ensinar melhor os alunos do ensino fundamental – um a respeito da tendência popular de “platooning” e outro sobre a prática bem menos comum de “looping” – a princípio parece que as palavras não estão relacionadas exceto pelo fato de que ambas possuem dois “os”. Platooning se refere a ter professores especializados em um assunto específico, como matemática ou inglês, que alternam a cada aula. Looping é um termo usado quando as crianças mantêm o mesmo professor por dois anos seguidos. Elas não mudam de professor a cada disciplina, nem a cada ano.

Um economista descobriu que o platooning pode estar prejudicando as crianças e dois outros economistas descobriram que o looping é bastante benéfico. A razão pela qual um funciona e o outro não pode ter ligação.

“Esses estudos são importantes porque nos dizem que a relação professor-aluno importa”, diz Tyrone Howard, professor de educação da University of California, em Los Angeles, que está escrevendo um livro referente ás pesquisas sobre a relação dos alunos com seus professores e o quão bem eles aprendem.

“Eu acho que as escolas, de várias maneiras, botaram o carro na frente dos bois. O que fizeram foi partir direto para a questão acadêmica, dispensando ou minimizando a importância dos relacionamentos.”

Menos de uma década atrás, os diretores de escolas do ensino fundamental começaram a pressionar seus professores para se especializarem em diferentes matérias, sobretudo a partir da terceira série, devido à pressão para obter uma nota melhor em testes padronizados. A teoria era de que os melhores professores de matemática, que já possuiam um ótimo histórico ao terem aprimorado as notas dos alunos nesta matéria, poderiam atingir mais alunos e essa especialização ajudaria todos a aprenderem mais.

Roland Fryer, da Harvard University, decidiu testar exatamente isso em um experimento publicado na American Economic Review, em junho de 2018. Fryer convenceu o distrito escolar de Houston a selecionar aleatoriamente 23 escolas de ensino fundamental

para que adotassem o ensino especializado por dois anos, do outono de 2013 até a primavera de 2015. Do primeiro ao quinto ano, cada professor ensinou menos matérias, mas foi responsável por mais alunos. Às vezes os alunos mudavam das salas de aula; outras vezes, eram os professores que alternavam enquanto os alunos permaneciam em sala.

Em seguida, Fryer comparou as pontuações dos testes das crianças nas escolas com o método platooning com as das escolas tradicionais, as quais um professor permanecia ensinando a maior parte das disciplinas. Para garantir que ele estivesse traçando uma comparação homogênea, Fryer havia comparado pares de escolas do ensino fundamental que apresentaram resultados quase idênticos antes do início do experimento.

Após cada um dos dois anos consecutivos, as notas de leitura e matemática das crianças que haviam sido ensinadas por especialistas eram piores do que aquelas que haviam sido ensinadas por um único professor. Até as notas das provas de baixo risco de ciências foram piores. O mais preocupante: as suspensões e ausências foram subitamente mais altas nas escolas que seguiram o platooning. Os alunos mais vulneráveis foram os mais prejudicados. Aqueles com necessidades especiais tiveram uma pontuação três vezes menor nas provas de alto risco e duas vezes menor nos testes de baixo risco em comparação com os alunos que foram ensinados da forma tradicional.

Nas pesquisas, os professores especializados disseram que eram menos capazes de bolarem instruções para cada criança e eram bem menos propensos a relatar um aumento da satisfação no trabalho ou desempenho do que os professores do ensino fundamental que passavam o dia todo com seus alunos.

Parece que os benefícios ostensivos da especialização não deram tanto resultado pelo fato dos professores terem menos interações com cada aluno. Ninguém estava cuidando dos alunos o dia todo ou fornecendo apoio emocional contínuo, mantendo o olho em uma criança que brigava de manhã ou cuja boca estava dolorida por causa de um dente solto.

“Pupilos não são pinos, e a produção de capital humano é muito mais complexa do que a montagem de automóveis”, escreveu Fryer, chamando seu experimento em Houston de um “conto que serve de alerta”.

Depois de um tempo, as matérias que as crianças precisam aprender, de física à história, tornam-se mais complexas, e em algum momento os professores não conseguem mais ensinar todos os assuntos.

Nos 34 países mais desenvolvidos que compõem a Organização para o Desenvolvimento da Cooperação Econômica, a especialização dos professores começa em torno do sexto ano, em média. Ainda assim, Fryer observou que cinco países utilizam, de maneira consistente, os professores especializados antes disso, a partir da terceira série.

No entanto, seis países, incluindo a Áustria, Hungria, Noruega, Portugal, Letônia e Israel, fazem exatamente o oposto. Não apenas não utilizam professores especializados no ensino fundamental, como o professor médio desses países permanece com o mesmo grupo de crianças do ensino fundamental por pelo menos três anos.

Dois economistas da Montana State University e da University of South Carolina estudaram o que aconteceu na Carolina do Norte quando alunos e professores passaram dois anos juntos. Eles identificaram todos os alunos que foram designados para o mesmo professor pelo segundo ano, entre o terceira e quinta série ao longo de 16 anos, de 1997 a 2013. Isso aconteceu por acaso e não foi uma política para manter as crianças juntas por dois anos seguidos com o mesmo professor.

Publicado na edição de junho de 2018 do Economics of Education Review, os pesquisadores descobriram que essa maior familiaridade entre alunos e professores levou a maiores resultados, apesar de um pequeno aumento, após o controle do desempenho acadêmico dos alunos e das diferenças dos professores. Os benefícios de obter o mesmo professor duas vezes seguidas foram maiores para os alunos das minorias. E quando uma grande parte dos colegas de turma tinha o mesmo professor de antes, até as crianças que eram novas na turma tinham pontuações mais altas que o esperado. Isso sugere que quando as pessoas se conhecem bem, o ambiente de sala de aula é melhor para o aprendizado.

Os pesquisadores Andrew Hill e Daniel Jones argumentam que seu estudo é uma evidência de que a solução de baixo custo do looping – atribuir a mesma classe de alunos ao mesmo professor por dois anos seguidos – é eficaz.

Howard, da UCLA, diz que os pesquisadores qualitativos documentaram a influência das relações na aprendizagem por mais de duas décadas. Um estudo de 1997 descobriu que as primeiras relações professor-aluno no início do ensino fundamental determinavam como as crianças se sentiam sobre a escola e seu desempenho acadêmico. Um estudo de 2004 mostrou um maior desempenho dos alunos do ensino médio que participaram de um programa no ensino fundamental para promover relacionamentos. E um estudo de maio de 2018 descobriu que, quando os professores são antagônicos, os estudantes universitários aprendem menos.

“Você não pode chegar ao conteúdo se o relacionamento e a parte de bem-estar social e emocional não forem atendidos primeiro”, disse Howard. “Sempre que se envolve sentimentos, é mais complicado de captar. Mas ainda é importante.” Agora que estudos quantitativos estão reforçando essas descobertas com grandes datasets e ensaios clínicos randomizados controlados mais rigorosos, Howard espera que mais diretores das escolas de ensino fundamental tomem conhecimento. O próximo desafio é traduzir essas descobertas em salas de aula para que os alunos também possam se beneficiar