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Ensino digital prepara melhor nossos filhos?

By 5 de dezembro de 2017 No Comments

Pesquisas sobre o novo fenômeno que inunda as escolas no mundo revelam mudanças cerebrais nos jovens: eles poderão ficar até menos aptos

Por Marc Szeligowski

“Pense diferente”. Foi mais do que um slogan publicitário. Foi um manifesto, e, com ele, o ex-CEO da Apple, Steve Jobs transformou mundos: o dos computadores, do cinema, da telefonia. O próximo plano pessoal do visionário digital era uma mudança radical no ensino, e mesmo tendo falecido, parece que ele está concretizando esta revolução.

A menos de 2 anos atrás a famosa revista alemã Der Spiegel anunciou que os alunos de uma das mais importantes redes de escolas particulares da Europa, na Holanda, abandonariam tudo de tradicional no ensino em troca de iPads com aplicativos pedagógicos. Esta rede possui pelo menos 1 dúzia de escolas na Holanda, milhares de alunos e ficaram conhecidas como “The Eleven Steve Jobs Schools”.

Anunciaram de forma radical: não haverá mais quadros, giz, salas de aula, aulas formais, planos de aula, carteiras, canetas, professores à frente da sala, horários, reuniões de pais e professores, notas, calendário letivo e nem férias. As crianças vão escolher quando, onde e o que desejam aprender, tendo como ponto de partida sua curiosidade.

Gertjan Kleinpaste, o diretor, explicou à Der Spiegel que os aplicativos didáticos transformam a aprendizagem em uma experiência semelhante a um game de computador. Em cada exercício, as crianças são corrigidas como se fossem jogadores. O objetivo é capacitá-las a alcançar o próximo nível no programa de aprendizagem em seu próprio ritmo. O papel do professor é ajudá-los, não como transportadores de conhecimento, mas como treinadores de aprendizagem. Porém, segundo ele, a interação entre a criança e o professor continuaria a ser o fundamento da lição.

Argumentou ainda, na reportagem, que o iPad mantém professores e pais constantemente informados sobre o que as crianças estão fazendo, o que aprenderam e como estão progredindo. E que se um aplicativo de matemática não é agradável ou bem sucedido, o professor simplesmente o substitui na imensa e sempre crescente prateleira online de aplicativos da Apple.

EUA: 99% USAM TELAS DIGITAIS

Pouco depois, uma tradicional rede de escolas britânicas, a Fundação Stephen Perse, também adotou o sistema de ensino totalmente apoiado nos iPads.Apenas 2 anos se passaram, e estes métodos de ensino já se alastraram em progressão geométrica em grande parte do mundo.

Nos EUA, somente em 2014, as escolas receberam um investimento de em torno de 100 milhões de dólares em compras com a Apple e quase 3 bilhões de dólares em computação, internet e sistemas educacionais digitais. Uma pesquisa feita no país, com estudantes de 8 a 18 anos, constatou que apenas 1% deles não utiliza seu smartphone ou computador para fins educacionais.

Outros estudos registraram o sucesso do ensino digital. Um deles ouviu a opinião de estudantes sobre os tablets, e concluiu que 92% deles acredita que os aparelhos mudarão a forma de aprender, 90% acha que eles tornam as aulas mais divertidas e 82% disseram que aprendem melhor com eles.

Outro estudo recente com professores, nos EUA, tabulou que 78%, acredita que esta tecnologia causa um impacto positivo na sala de aula e na produtividade.

 

AULAS DE PROGRAMAÇÃO:

A PARTIR DE 5 ANOS

A Inglaterra foi muito mais longe, desde meados do ano passado, tornando-se o primeiro país do mundo a incluir na grade curricular oficial (do ensino fundamental ao médio) a matéria de Programação para Computadores. O novo currículo foi anunciado em julho de 2013 pelo Secretário da Educação Michael Gove, que disse à mídia: “Pela primeira vez, as crianças estarão aprendendo a programar computadores e isto trará evolução na ciência da computação e dará condições de nossos filhos competirem na corrida global.” As crianças já começam a aprender a escrever código de programação quando entram na escola aos cinco anos, e não vão parar até pelo menos os 16. Logo no início aprendem a criar programas simples, noções de algoritmos e como eles são implementados através de instruções detalhadas, passo a passo. Aprenderão ainda a compreender as redes de computadores e usar o raciocínio lógico para detectar e corrigir erros em algoritmos. Finalizarão o estudo prontos para continuarem uma carreira profissional em computação. O Curriculum entrou em vigor em setembro de 2014 e já vem sendo elogiado pela maior parte dos especialistas. Muitos dizem que isto não é apenas uma mudança evolutiva, mas uma enorme revolução no estudo da computação, que até agora consistiu quase inteiramente de lições em como usar programas da Microsoft.

Todos estes fatos realmente comprovam um avassalador crescimento e um sucesso do ensino digital. Mas, todos nós, cercados por esta “invasão” digital, em meio a esta mega acessibilidade e mudanças drásticas em curso, pressentimos que algumas serão danosas. O pior é que é muito cedo para descobrir quais.

Em abril de 2013 o jornal inglês The Telegraph diagnosticou uma paciente de apenas quatro anos, viciada compulsiva em computador, por usá-lo quatro horas por dia. O entrevistado Dr. Richard Graham disse, há 2 anos atrás, que já havia muitos outros pacientes semelhantes no seu hospital e muitos mais na Inglaterra. O jornal levantou que vários pais que se encontravam incapazes de desmamar seus filhos de jogos de computador ou telefones celulares, acabavam pagando até 16 mil libras por um programa de 28 dias de “desintoxicação digital” projetado pelo médico, Dr. Graham, no Nightingale Hospital Capio, em Londres.

 

JOVENS PERDEM A CAPACIDADE DE LER EMOÇÕES

A Universidade da California, em Los Angeles, através de seu Instituto de Psicologia, publicou recentemente um estudo que mostra que as habilidades sociais das crianças podem estar em declínio, pois têm menos tempo para a interação face-a-face, devido à crescente utilização de meios digitais.Os cientistas descobriram que crianças que ficaram cinco dias sem usar smartphones, televisão ou outros tipos de telas digitais melhoraram bastante a leitura de emoções humanas em comparação a outras, da mesma escola, que continuaram a usar esse tipo de aparelho numa média de 4 horas por dia. Segundo a professora de psicologia da universidade, Patrícia Greenfield, as pessoas estariam prestando atenção apenas aos benefícios do uso de mídias digitais, e não às consequências prejudiciais, como o declínio da sensibilidade à percepção das reações nas relações humanas pela substituição da interação social por interação digital.

Para realizar o estudo, 51 crianças moraram juntas por cinco dias no Pali Institute, um acampamento de ciência perto de Los Angeles que não permite o uso de dispositivos eletrônicos, enquanto outro grupo de 54, da mesma série, permaneceram nas suas respectivas localidades utilizando normalmente seus equipamentos digitais. Em seguida, estudantes dos dois grupos avaliaram fotos de rostos humanos com diferentes emoções e assistiram vídeos de atores interagindo. Ao serem questionados sobre as emoções transmitidas, as crianças que estavam no acampamento demonstraram maior capacidade de identificar emoções em relação às que não estavam. Segundo os pesquisadores, o resultado é uma demonstração da necessidade de interação social no que diz respeito ao desenvolvimento de habilidades e sensibilidade em relação à outros seres humanos. Ou seja, a exposição digital nos padrões normais de hoje pode tornar as crianças menos hábeis nas relações interpessoais e, evidentemente, desencadear todas as consequências disto na sua vida. Os especialistas destacaram que apesar da necessidade de estudos mais profundos, foi surpreendente aparecer resultados tão claros na pesquisa.

 

FUTURO: MENOS APTOS

Jim Taylor, Ph.D. autor de vários livros e professor da Universidade de San Francisco, publicou um artigo na Revista Psicology Today enunciando estudos sobre o uso intenso da tecnologia digital por crianças, e entre resultados positivos e negativos, concluiu que elas poderão ter piores resultados e, paradoxalmente, tornarem-se menos preparadas para prosperarem no mundo moderno.

A tecnologia digital faz o cérebro prestar atenção às informações de forma muito diferente do que a leitura ou visão real. Explica o professor que estudos demonstraram que aqueles que lêem uma versão que tenha somente o texto de uma apresentação, em comparação a uma que inclua um vídeo, o primeiro é que fica mais atraente, informativo e divertido. O contrário do que se prega. Além disso, constatou-se que os alunos que tinham permissão de acesso à internet durante a aula não se lembravam da palestra, e se saíram piores em avaliações do que aqueles que não estavam online durante a aula. Finalmente, a leitura desenvolve melhor do que a mídia visual, a reflexão, o pensamento crítico, resolução de problemas e vocabulário.

Exposição à internet não é apenas ruim: pesquisas mostraram que vídeo games e outras mídias digitais melhoram a capacidade de visão, aumentam habilidade de atenção, tempo de reação e capacidade de identificar detalhes em meio ao caos. Assim, ao invés de fazer com que crianças fiquem burras, a internet acaba apenas fazendo-as diferentes: ao invés de lembrarem melhor as coisas, terão mais capacidade de lembrar onde procurar determinadas coisas e, considerando a facilidade ao acesso de informação de hoje, pela lógica, pode ser melhor saber onde procurar do que realmente saber uma informação.

O Ph.D. da San Francisco University conclui: o que tudo isso significa na criação de nossos filhos? Parece claro que o tempo de tela excessivo aliado à pouca atividade de leitura, brincadeiras e jogos tradicionais – fora do mundo virtual e que estimulem a imaginação e percepção – gerarão crianças com cérebros menos preparados para prosperar no seu próprio novo mundo louco da tecnologia.

 

 

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Estudos já mostram efeitos colaterais do uso intenso de aparelhos digitais:

PERIGO DE DEPENDÊNCIA PSÍQUICA

MENOR CAPACIDADE DE:

– Memorização

– Leitura de emoções

– Reflexão

– Pensamento crítico

– Vocabulário

– Imaginação

 

 

 

Fontes:

Pesquisa da Universidade da Califórnia, Los Angeles, Instituto de Psicologia, Estados Unidos

Jim Taylor, PhD. autor de vários livros e professor da Universidade de San Francisco, Estados Unidos

Gertjan Kleinpaste, diretor da Eleven “Steve Jobs Schools”, Holanda

Fundação Stephen Perse, Inglaterra

Dr. Graham, do Nightingale Hospital Capio, em Londres, Inglaterra