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A genética influi na permanência na escola

By 5 de dezembro de 2017 No Comments

Um grande estudo encontrou variantes de 74 genes que estão associados com anos de escolaridade formal, mas isso não significa que existem “genes de educação”

Por Eddy Hong

Por que algumas pessoas estudam muitos anos em faculdades, enquanto outras desistem durante o ensino médio? Há muitas razões óbvias, que vão desde sua personalidade, sua história, privilégios sociais até a influência dos pais, de grandes professores e sociabilização com colegas. Mas, é negligenciado um fator: nossos genes desempenham um papel pequeno, mas significativo na nossa trajetória acadêmica.

Sabemos disso porque gêmeos idênticos, que compartilham todo o seu DNA, possuem níveis mais semelhantes de educação do que gêmeos não idênticos, que compartilham apenas a metade de seus genes. E agora, em um estudo de quase 294 mil pessoas, uma equipe internacional liderada por Daniel Benjamin, David Cesarini, e Philipp Koellinger identificaram variantes em 74 genes que estão associados com níveis de escolaridade. Em outras palavras, aqueles que carregam mais dessas variantes, em média, completam mais anos de escolaridade formal.

Os pesquisadores prevendo o enorme barulho e questionamentos que esta afirmação mal interpretada causará, lançaram um detalhado FAQ, ponderando muito suas descobertas e preventivamente enfatizando o que não comprovaram. “Em primeiro lugar, não existem genes para a educação”, diz Benjamin. Genes não afetam a educação diretamente. Em vez disso, muitos destes 74 parecem estar ligados no cérebro de fetos e estão envolvidos na criação de neurônios, guiando seus movimentos e sendo tecidos juntos. Essas influências biológicas podem afetar traços psicológicos, que por sua vez influenciariam questões sociais.

“Entretanto, estes genes não são deterministas”, acrescenta Benjamin. Há um mito comum que insinua que somos a nossa parte fixa, gerada pelos nossos genes e predestinada, desde a concepção, e outra porção flexível que depende do ambiente e está sob nosso controle. Isso está errado. Natureza e criação não se opõem; eles andam de mãos dadas. O ambiente define o palco no qual genes agirão sem terem um script.

Por exemplo, a equipe descobriu que as suas 74 variantes tem um efeito muito mais forte no nível de escolaridade entre os suecos nascidos na década de 1930 do que os nascidos na década de 1950. Entre esses anos, a Suécia introduziu reformas que estenderam a escolaridade obrigatória por dois anos, e criaram melhor acesso a escolas e universidades. “Esta causa externa provavelmente minimizou a influencia dos genes”, diz Benjamin.

Assim, o sucesso educativo não é causado pelos genes, nem se pode “culpar seus genes” pelo insucesso. Isso é especialmente verdadeiro porque cada um de 74 variantes da equipe teve um efeito minúsculo, equivalente a apenas 3 a 9 semanas de escolaridade extra. E coletivamente, eles explicaram apenas 3% das diferenças nos níveis de educação ao longo de toda a população. “Para efeito de comparação, as previsões meteorológicas profissionais preveem corretamente cerca de 95% da variação nas temperaturas do dia a dia”, escreve a equipe no seu FAQ. “Até os meteorologistas são os previsores muito mais precisos do que os geneticistas para ciências sociais.”

Por essa razão, você não pode utilizar com segurança esses 74 genes para prever quanto tempo à criança vai ficar na escola, ou para estratificar grupos de estudantes a fim de trabalhá-los. “Não é uma maneira inteligente de usar a pontuação”, diz Benjamin.

Mas depois de tanto tempo e tanto esforço para encontrar genes que têm tão pequenos efeitos, e ainda isso não poder ser útil para prever nada, porque então se preocupar com isto?

Em parte, Benjamin diz: “Encontramos uma linha na areia”. Muitos estudos anteriores tinham procurado variantes genéticas ligadas à inteligência ou desempenho acadêmico, mas seus resultados foram em geral enganosos e irreproduzíveis. A razão é que os estudos tinham amostras que não eram grandes suficientes. Para detectarem com segurança as informações que procuravam precisariam de amostras imensamente maiores do ponto de vista estatístico.

Médicos geneticistas se confrontam com o mesmo problema possuindo de métodos fracos e resultados desfigurados. Uma solução é unir forças e reunir os dados de muitos estudos, e foi exatamente o que Benjamin, Cesarini e Koellinger estão fazendo.

Em 2011, eles fundaram a Social Science Genetic Association Consortium  (SSGAC), cujo primeiro trabalho, publicado em 2013, reunindo estudos com 101.000 pessoas, descobriu as primeiras três variantes genéticas, ligadas ao nível de escolaridade. Agora, com quase três vezes mais voluntários de 64 amostras separadas, eles encontraram mais 71 variantes, totalizando os 74 genes. Cruzaram ainda estes resultados com outra amostra de mais 113000 voluntários de um estudo de base a parte do Reino Unido.

Apesar deste esforço gigantesco, a equipe só pode comprovar 3% da variação no nível de escolaridade, a partir de uma estimativa que 20% seria influenciada por fatores genéticos. Isso sugere que pode haver milhares de outras variantes biológicas não identificadas que são individualmente desprezíveis, mas coletivamente poderosas. Encontrá-las seria muito difícil e exigiria estudos ainda maiores.

Então, mais uma vez: por que empreitar estes estudos?

Podemos aprender algo sobre a biologia subjacente à inteligência. Isto se comprovou com esta descoberta, que em última instância genes influenciam nossas vidas acadêmicas. Mas como, e através de que meios?

Uma maneira de responder a isso é criar um “score poligênica” que reflita quantas dessas variantes uma pessoa carrega, e depois ver como que se relaciona com traços de personalidade específicos ou habilidades mentais.

Terrie Moffit da Universidade de Duke fez exatamente isso. Sua equipe usou um estudo anterior do SSGAC, para criar uma pontuação poligênica, aplicado a um grupo de neozelandeses, cujas vidas foram rastreadas desde a década de 1970. Suas pontuações neste score genético conseguiram prever seus comportamentos como quando eles começariam a falar, a velocidade que eles aprenderiam a ler, quais ascensões sociais teriam, e até mesmo a classe socioeconômica dos parceiros que eles escolheriam, independentemente de quanto de educação concluiriam.

Isto sugere que estas variantes associadas à educação rastreiam sim, outras qualidades subjacentes, como inteligência, autocontrole, ou habilidades interpessoais.

Benjamin acredita que os educadores não podem se beneficiar diretamente, mas os cientistas sociais poderão.

A questão crucial que este estudo levanta é: nós sabemos que os genes afetam os resultados educacionais, mas ninguém os leva em conta. Isso é como tentar ver se o excesso de peso traz doenças cardíacas sem considerar as dietas, ou verificar se a vida urbana afeta o risco de câncer de pulmão deixando de lado as taxas de tabagismo.

Se você descartar essas outras variáveis, você acaba com uma imagem distorcida. Da mesma forma, quando pesquisamos na área da ciência social, comprovados, descobertos os efeitos genéticos, seriam isolados, garantiriam mais precisão nas pesquisas e nos resultados.

“Seria como analisar uma imagem em um microscópio. Nós podemos ver melhor o que os efeitos de intervenções ambientais causam”, conclui Benjamin.

Fonte: Social Science Genetic Association Consortium  (SSGAC) – Inglaterra

Thais Gargantini

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