Educação

A ESTIMULAÇÃO ELÉTRICA TRANSFORMARÁ A APRENDIZAGEM?

By 4 de março de 2019 No Comments

Alunos estão turbinando seus cérebros para progredirem na escola, mas a evidência para a prática é limitada.

Por Daisy Yuhas – Science of Learning – The Hechinger Report (Columbia University – EUA)

Imagine um dispositivo que em apenas 30 minutos torna o cérebro mais receptivo a novas informações,reduzindo o tempo necessário para aprender pela metade. Alguns neurocientistas dizem terem demonstrado esse feito. O trabalho deles é parte de um esforço para explorar como os baixos níveis de corrente elétrica contínua, realizadas no cérebro por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo, podem alterar a atividade neural e melhorar o desempenho de uma pessoa.

Em um experimento, por exemplo, mostra-se que a estimulação elétrica acelerou a rapidez com que os participantes aprenderam a detectar bombas ou atiradores de elite escondidos em uma simulação de treinamento militar.

“Quase dobramos a taxa de aprendizado das pessoas”, diz Vincent Clark, professor de psicologia e neurociência clínica da Univesity of New Mexico, que conduziu essa pesquisa com seus colegas. Desde a publicação de 2012 dessa pesquisa, ele e outros estudiosos replicaram o estudo várias vezes e obtiveram resultados semelhantes.

APLICAÇÕES DIVERSAS

O estudo de Clark não é o único caso. As descobertas sugerem que essa forma de estimulação elétrica – conhecida como estimulação transcraniana por corrente contínua, ou ETCC – poderia torná-lo melhor em matemática, deixa-lo mais criativo e até mesmo estimular a memória. No ano passado, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (ARPA) anunciou que apoiaria um programa usando essa técnica para explorar se a ETCC poderia acelerar a aprendizagem de línguas estrangeiras em 30%. (O Departamento de Defesa também financiou a pesquisa da equipe da University of New Mexico.) E alguns membros da equipe de salto de esqui dos EUA que competiram nas Olimpíadas de Inverno, treinaram usando bandanas de estimulação elétrica da empresa Halo Neuroscience, que vende o aparelho ao público em geral.

A técnica, que existe há quase duas décadas, é relativamente simples. As pessoas colocam eletrodos em certas regiões do cérebro que sejam relevantes para uma determinada tarefa, depois ativam a estimulação elétrica enquanto a praticam. Os pesquisadores acreditam que a eletricidade pode estimular as células cerebrais a formarem novas conexões e que tal conectividade é fundamental para o processo de aprendizagem. A estimulação transcraniana por corrente contínua é uma das várias abordagens não invasivas que são usadas para estimular o cérebro, mas é a única que permite que os corajosos do “faça-você-mesmo” (FVM) testem a ETCC em casa. Isso porque o equipamento é relativamente barato e as preocupações com segurança são mínimas. Basicamente, os eletrodos e uma bateria de nove volts podem custar menos de US$ 100. Vários estudos descobriram apenas efeitos colaterais fracos: na pior das hipóteses, desconforto na pele sob os eletrodos. Há evidências de que a popularidade do equipamento está crescendo constantemente. Há vários anos, o Reddit hospeda um fórum sobre FVM ETCC: atrai até 10.000 visitantes por mês que trocam opiniões sobre temas como aparelhos para comprar ou como usar a estimulação para ajudar a dominar o violão. No Youtube, os entusiastas compartilham como eles experimentaram “euforia” durante a estimulação ou melhoraram seu desempenho no xadrez.

Além disso, mais recentemente, as empresas deixaram mais fácil para as pessoas experimentarem ETCC em casa. Na Amazon, o fone de ouvido Halo, que custa US $ 719, apresenta mais de 100 avaliações e uma classificação de quatro estrelas. A Caputron, que vende equipamentos de ETCC, notou um aumento nas vendas em torno do período de provas, levando a empresa a suspeitar que os estudantes universitários estão turbinando seus cérebros para impulsionar as sessões de estudo. (Tendo em vista esse padrão, o diretor executivo Robin Azzam observa que a empresa agora fornece códigos de desconto durante esses prazos.)

Entretanto, mesmo com toda a empolgação com essa abordagem para melhorar a mente, ainda há muita coisa desconhecida. E isso é particularmente verdadeiro aos alunos que procuram uma vantagem durante o período intensivo de estudos.

“A base de evidências, no que se refere à capacidade de fazer você se sair bem em exames e outras coisas, é absolutamente incompleta, o que não quer dizer que funcione ou não”, diz Marom Bikson, professor da Grove School of Engineering no City College of New York, que estudou ETCC.

Bikson diz que a pesquisa sobre como ETCC pode afetar a atenção, comportamento e cognição ainda é recente. Ele também suspeita que quando os alunos tomam Adderall ou café durante o período do exame, aqueles que usam ETCC “sem indicação” são mais influenciados por anedotas sobre a experiência do que por dados concretos. E há muitas razões para desconfiar das alegações em torno da estimulação elétrica, de acordo com Emiliano Santarnecchi, instrutor de neurologia da Harvard Medical School. Ele diz: “Não é tão simples quanto parece”.

Santarnecchi emprega a estimulação elétrica em sua pesquisa e a vê como uma ferramenta poderosa para aprender sobre o cérebro. Contudo, diz que a evidência mais forte da eficácia da ETCC como um intensificador cognitivo vem de estudos que agrupam dados de vários artigos publicados, à procura de um efeito geral. Infelizmente, essa estratégia geralmente envolve a combinação de diversos pequenos estudos de baixa qualidade para produzir um resultado aparentemente mais significativo. Isso também significa que dados não publicados que não encontraram algum efeito associado à estimulação elétrica são negligenciados. Santarnecchi diz que também tem como preocupação, a falta de conhecimento em torno dos efeitos em outras regiões do cérebro à medida que uma determinada área é estimulada. É possível, por exemplo, que haja um custo oculto, como danos a uma parte não estimulada do cérebro. Também não sabemos muito sobre os efeitos a longo prazo do uso contínuo de ETCC ou se o cérebro se habitua à estimulação ao longo do tempo.

Ele também enfatiza que cada cérebro é diferente e é difícil saber como cada pessoa pode reagir ao ETCC. Alguns dados sugerem que as pessoas podem reagir de maneira diferente devido aos seus genes ou até mesmo em sua habilidade na área que estão tentando aprimorar. Por exemplo, em 2016, uma equipe de pesquisa descobriu que estimular a parte do córtex pré-frontal – uma área do cérebro envolvida no pensamento e na tomada de decisões – poderia melhorar a capacidade de improvisação nos músicos de jazz amadores, mas poderia prejudicar o desempenho de especialistas. E há aqueles que duvidam da eficácia da ETCC por completo. Alguns cientistas argumentam que muitos dos ganhos que as pessoas atribuem à estimulação cerebral, podem estar ligados a um efeito placebo. (Uma sensação de formigamento no couro cabeludo, afinal de contas, certamente levaria muitos de nós a acreditar que algo interessante está acontecendo.) Há até mesmo pesquisadores que questionam se a corrente elétrica usada nesses estudos pode chegar ao cérebro.

Nenhuma dessas advertências desmerece o quão fascinante a estimulação cerebral é como uma possível ferramenta para estudar o cérebro, e até mesmo uma nova forma de medicina. Estimular o córtex motor, por exemplo, poderia ajudar os pacientes com AVC a obterem maiores ganhos durante a fisioterapia. A ETCC já é aprovada na Europa para ajudar pessoas que sofrem de condições como dor e depressão, e cientistas estão explorando seu potencial para ajudar pessoas com epilepsia, esquizofrenia e outras condições. (De fato, muitas pessoas estão tentando autotratar seus sintomas depressivos.)

Mas até que se saiba mais sobre como ela funciona e as melhores maneiras de usá-la, a ETCC caseira é um experimento de “risco próprio”. Para algumas pessoas, essa incerteza faz parte do atrativo. Para o resto de nós, vale lembrar que já temos alguns “biohacks” de baixo risco para aprender: comer de forma saudável, manter-se hidratado, fazer exercícios regularmente e ter uma boa noite de sono.

Thais Gargantini

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